Criminalizar o trabalho fez comerciantes agirem como presidiários

O que não pode faltar dentro de uma prisão é esperança.

Além de grades, celas com itens básicos e segurança reforçada com armas letais, uma prisão só funciona bem se possuir outros elementos que nem sempre enxergamos com os olhos. No geral, o que faz uma cadeia “funcionar bem” é ter ali, inserido entre os presos, a esperança de que aquele momento é passageiro e toda privação de liberdade terá um fim.

Eu nunca entrei numa cadeia, até por isso não saberia falar sobre o tema com propriedade. Mas quem falou sobre isso de forma muito lúcida foi o advogado criminalista Augusto de Arruda Botelho, que até pouco tempo fazia parte do programa “O Grande Debate”, da CNN Brasil.

A pandemia nos prendeu e nos imobilizou

Já faz mais de um ano que vivemos em pandemia. O mundo inteiro ainda sofre com as consequências do Coronavírus, que mata milhares de pessoas todos os dias mesmo com a descoberta e aplicação de vacina nos países mais ricos.

E uma das medidas adotadas mundo afora para combater a disseminação do vírus foi o isolamento social. Com isso, o comércio foi duramente afetado, tendo em muitos momentos que fechar suas portas para que a circulação de pessoas diminuísse. Foi o famoso e forçado “fique em casa”, tão difundido nos meios de comunicação.

O comércio local – aquela lojinha de bairro que vende bugigangas, a papelaria e até mesmo os cabeleireiros -, foi duramente penalizada pelo fechamento forçado. Essas pessoas foram praticamente proibidas de exercer suas funções, onde apenas o que era essencial – aos olhos dos políticos – poderia funcionar normalmente. Fica a questão sempre pertinente: o que é essencial pra mim é também pra você?

Essas medidas fizeram com que esses comerciantes ficassem com as portas fechadas por um longo período. O que restou foi esperar pela reabertura para que pudessem faturar alguns trocados e pagar as contas que já estavam atrasadas.

É nesse ponto que faço a comparação com os presidiários que cumprem suas penas em regime fechado.

Se para os “foras da lei” o que vale é a esperança de que um dia voltem ao convívio social e por isso não transformam a cadeia num verdadeiro inferno, a mesma lógica vale para os empresários e comerciantes. Eles esperam, com alguma ansiedade, a data da próxima reabertura, mesmo sabendo que em breve tudo vai fechar novamente.

Num momento de tantas incertezas, o que não pode faltar é ajuda

Saidinha” para o dia das mães

No último domingo tivemos a comemoração do dia das mães. Alguns presos, nesta data, ganham a oportunidade de visitar parentes, amigos e passarem o dia com suas respectivas mães. Para os comerciantes, foi mais uma dose de esperança saber que poderiam trabalhar na semana anterior com as portas abertas e atendendo seus clientes.

O “dia das mães” é uma das datas mais interessantes para o comércio. As lojas, de maneira geral, acabam elevando seus faturamentos com a venda de presentes e itens que compõem esse dia tão importante. Da flor como lembrancinha até o carvão para o churrasco, todo mundo acaba vendendo mais e é por isso que é uma das datas mais esperadas pelos varejistas.

A grande questão é: isso resolve?

Sabemos que para os presidiários a esperança é fundamental. Eles sabem que, mais cedo ou mais tarde, terão de volta a tão sonhada liberdade. E para os comerciantes?

É óbvio que a pandemia do Coronavírus vai acabar. Mas aguentar com as portas abertas, até lá, é o grande desafio de quem tem uma empresa. Se o condenado sabe exatamente quando sua pena vai acabar, o mesmo não ocorre com os comerciantes.

Pode ser que tudo melhore e a partir de hoje não tenhamos mais fechamentos, o que seria ótimo. Mas não podemos nos esquecer que as “ondas” do Coronavírus vem e vão, e uma terceira ou quarta onda pode fazer com que tudo feche novamente e a esperança escorra pelos dedos mais uma vez.

A esperança será uma eterna aliada do comerciante?

Infelizmente, a tendência é que pouca coisa mude nos próximos meses. Pelo menos para os comerciantes.

O que temos visto é que, quando as medidas restritivas impostas pelo governo são relaxadas, as pessoas de maneira geral acham que o problema foi resolvido e voltam a se aglomerar não apenas no comércio – que é tratado como grande vilão dessa história -, mas em festas e confraternizações com a família e amigos. E relaxam também nas medidas preventivas, como uso de máscara de proteção e distanciamento em locais públicos.

Dessa forma, vai ser difícil ter uma mudança significativa. Com o atraso e lentidão no programa de vacinação, podemos jogar as poucas esperanças que ainda temos para o ano que vem.

E em 2022 você já sabe como vai ser: ano de eleição, muita politicagem sobre os assuntos mais importantes e que afetam a vida das pessoas e o progresso vai na mesma velocidade dos passos de uma tartaruga.

A certeza é que muitos condenados terão uma folguinha com a família no dia dos pais e até mesmo no Natal. Já os comerciantes não sabem quando vão ter paz para reabrir suas lojas sem ficarem com medo de, na próxima semana, ter que fechar tudo novamente.

Tudo depende do nosso esforço. E o fardo, quando pesar, não pode ser carregado por aqueles que querem apenas trabalhar.

2 comentários

  1. Muito bom!
    Parabéns mais uma vez por abordar um assunto que faz parte de todos nós, ou melhor deveria fazer parte, mas infelizmente ainda existem pessoas que insistem em tratar esse assunto tão perigoso como algo inofensivo, e nossos governantes saem na frente nesse quesito.

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