O futebol é um jogo de amor

Ontem o Guarani jogou. Ganhou de 3 a 0 do Operário, lá do Paraná, jogando no Brinco de Ouro da Princesa. Que nome mais bonito para um estádio de futebol! Mas este texto não é sobre a última rodada da Série B. Por mais incrível que possa parecer, este é um texto de amor.

O futebol, pra mim, é um meio de conexão. Conexão com a minha infância, com minhas raízes e principalmente com o meu pai. O futebol nos une, nos aproxima, nos junta para falar sem compromisso sobre a nossa grande paixão.

Eu, assim como meu irmão, sou são paulino. Meu pai, um português que está no Brasil desde o final da década de 1970, é bugrino. Se você não sabe, “bugrino” é aquele que torce pelo Guarani de Campinas.

Meu pai é um apaixonado por futebol. Lá em casa só a minha mãe não ligava muito, mas também não torcia contra. Tanto é que meu nome, Leandro, é em homenagem ao ex-jogador do Flamengo. Segundo meu pai, Leandro era um ótimo lateral direito, tanto que defendeu a seleção brasileira na Copa do Mundo de 1982. Pode ser que eu esteja errado, mas meu irmão não teve a mesma sorte na escolha do nome. Desconheço a ligação de Gustavo com o futebol. Talvez tenha sido um acordo, e ficou para a minha mãe escolher o nome do seu segundo filho.

Como eu disse, torço pelo São Paulo. Meu pai nunca fez pressão para que fôssemos torcedores do Guarani. Isso não impediu que compartilhássemos bons momentos tendo o futebol como pano de fundo.

Adorávamos ir ao estádio. Já assisti, no campo, muito mais jogos do Guarani do que do próprio São Paulo. Aliás, só conheci o Morumbi em 2000, quando tinha 14 anos, num jogo bem feio entre São Paulo e São Caetano que não saiu do 0 a 0. Antes disso, era frequentador assíduo do Brinco de Ouro (Guarani) levado pelo meu pai e do Décio Vitta (Rio Branco) por causa do meu tio Nilson.

Como eu tenho saudade dos tempos que frequentávamos estádios nos finais de semana. Ainda mais o Brinco de Ouro, por ter uma ligação direta com o meu pai.

No final dos anos 1990 era comum irmos até Campinas assistir os jogos do Guarani. Era legal demais e eu torcia muito pelo “Bugre”. Lembro de vários jogos, contra vários adversários diferentes. De estar sentado naquela arquibancada de cimento, de sentar atrás de um dos gols porque “era mais tranquilo que o tobogã” e tantos outros detalhes. Eu só não torcia pelo Guarani quando o jogo era contra o São Paulo. Confesso que não conseguia.

Lembro da primeira briga feia que vi em estádio de futebol. Foi num Guarani x Corinthians. Antes mesmo de entrarmos já encontramos vários torcedores feridos, com a cabeça sangrando. O clima era bem tenso. E lembro como se fosse hoje do meu pai segurando minha mão e dizendo que não ia acontecer nada com a gente. A orientação dele era sempre a mesma: “quando você ver uma briga, corra pra longe”.

Não sei o que minha mãe achava – as mães costumam ter medo desse tipo de “passeio” que mais parecem uma aventura -, mas futebol era quase imperdível para nós. A última vez que fui no Brinco de Ouro foi num Guarani x Ponte Preta em 2002 (o único Dérbi que assisti no estádio) e, pra variar, teve muita confusão na arquibancada.

Aquele dia foi interessante. Era uma segunda-feira e lembro que rolou uma confusão danada na arquibancada envolvendo a torcida da Ponte Preta e a polícia.

Naquele dia, para provocar os pontepretanos, a diretoria bugrina colocou uma caixa de som virada para a arquibancada que só tocava o hino do Guarani. Era um negócio insistente, repetitivo e até chato. A solução da torcida da Ponte foi brilhante: eles facilitaram a entrada de um menino no gramado para que ele desligasse as caixas de som. E foi o que o menino fez, levando a torcida adversária ao delírio, como se fosse um gol.

É óbvio que isso daria merda. E deu. Teve um princípio de confusão na arquibancada – a polícia tentando identificar os mandantes daquilo -, as pessoas começaram a se espremer e uma parte da grade de proteção caiu. Várias pessoas se machucaram e foi um deus no acuda. E nós assistindo a tudo isso, do outro lado do estádio, na torcida do Guarani.

O jogo foi 4 a 2 pra Ponte, de virada. Naquele dia o bugre defendia um tabu de 15 anos sem perder do seu grande rival, o que levou um torcedor a ir fantasiado de debutante ao estádio para tirar sarro. Disso eu também não esqueço.

Tudo isso já faz algum tempo, mas ainda vejo o Guarani como uma ponte – e aqui não falo do time – de união entre eu e meu pai. Nós conversamos bastante, nos vemos todos os dias no trabalho, mas o Guarani ajuda a nos unir ainda mais. E é por isso que acompanho, até na segunda divisão, os passos do bugre de Campinas. Prefiro saber o que acontece com o Guarani do que me informar sobre quantos gols o Messi fez na Champions League jogando contra um time do leste europeu. Nada contra, é bonito de se ver, mas a minha conexão está aqui, mais próxima.

A gente não precisa de títulos ou troféus para se conectar. Não precisamos de grandes craques nem de arenas multiuso para sentir o que o futebol tem para nos oferecer. É só perguntar “você viu o Guarani ontem?” e a conexão está feita. O assunto rola, a discussão ganha outros ares e o papo flui, até além do futebol e do Guarani. E isso acontece até mesmo quando nenhum de nós assistiu o último jogo.

O futebol tem dessas coisas. Talvez você tenha outros esportes ou situações que sirvam como pano de fundo para uma grande amizade, uma história de amor ou uma simples conexão com um familiar que ama muito.

Meu irmão, comemorando gol contra a Ponte Preta jogando no Brinco de Ouro da Princesa

Tem uma parte do hino do Guarani que fala assim: “Avante, avante meu bugre. Que nós vibramos por ti. Na vitória ou na derrota, hoje e sempre Guarani”. É esse o sentimento que tenho. De que independente do que aconteça, nós, como família, estaremos sempre juntos, muito por conta dos nossos times de coração e do amor pelo futebol.

Teria muito mais histórias pra contar. Tenho tantos outros momentos para recordar e deixar gravado em textos como este, mas fico por aqui. Preciso parar um dia e escrever sobre o ano que meu irmão jogou pelo Guarani, fez gol até na Ponte Preta e certamente fez da vida do meu pai muito mais feliz por conta disso. Uma pena que durou tão pouco, mas valeu a pena.

Embora seja são paulino, a camisa do Guarani eu nunca deixarei de vestir porque ela carrega muito mais do que uma cor verde e um escudo diferente: ela conta uma história de amor e conexão que nenhuma outra camisa será capaz de contar.

1 comentário

  1. Putz!
    Que legal!
    Além da da paz e amor que rola como águas cristalinas de um rio na nossa família, tem tbem à conexão de pai pra filhos no futebol. Vcs (Leandro e Gustavo) nasceram em anos dourados do tricolor e seguiram seus corações tricolores eu como bugrino convicto vermelho por dentro (Benfica) e verde por fora mas de um amor sincero por esse clube que me deu muitas alegrias.
    Nossa conexão vai muito além, mas futebol nos aproximou ainda mais com diálogos opiniões sobre nossos times sempre de uma maneira muito legal.
    Me orgulho muito do nosso passado.
    Saudades?
    Sim!
    Mas ter vcs (Leandro e Gustavo) como filhos, ver vosso crescimento, fazer parte da vossa vida, o caráter e honestidade do dia dia é um presente de Deus.
    O presente é sem dúvida o reflexo do passado então tá tudo maravilhoso.
    Há!
    Sobre o gol do Gustavo no derbinho, passou rápido!
    Mas foi intenso como nossa vida, feita de momentos maravilhosos que passam rápido.
    Mas foi bom!

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