Água: quem vai ficar com a última gota?

Os problemas relacionados à falta d’água são cada vez mais constantes. Corremos o risco de ficar com as torneiras secas?

Amyr Klink costuma dizer que aprendeu muito com suas viagens solitárias para a Antártica. Gosta sempre de falar da importância que outras pessoas tem nas nossas vidas, mesmo de forma “invisível”.

Para Amyr, só quando estamos completamente sozinhos e tendo que nos virar nas mais variadas tarefas do dia a dia é que damos importância para quem faz nosso trabalho doméstico, para aqueles que trabalham para que a água chegue até nossas torneiras, a energia elétrica chegue até a tomada entre tantas outras coisas.

E podemos dizer que Amyr Klink fala disso com muita propriedade por tudo que já viveu. Hoje com mais de 60 anos, já atravessou o Atlântico num barco à remo e passou anos sozinho na Antártica. Nas suas expedições ao Polo Sul, ele precisava até mesmo “fazer” água para cozinhar e beber – nesses ambientes, o gelo precisa ser derretido para que a água possa ser consumida. Não foram poucas as lições aprendidas em ambientes que oferecem condições como esta.

A história vitoriosa de Amyr Klink está diretamente ligada ao planejamento rigoroso que é capaz de traçar antes de entrar no barco – que normalmente é construído por ele mesmo. E no meio de tantos objetivos a serem alcançados, cuidar das questões relacionadas à água é essencial para o sucesso do projeto. Nunca foi tão importante falar sobre água potável como neste momento.

Queremos jogar esse problemão pra debaixo do tapete, mas sabemos que se tudo continuar da maneira que está, chegará o dia em que abriremos as torneiras e não teremos uma só gota. E aí, o que faremos?

Amyr Klink no barco que usou para atravessar o Atlântico remando

Na semana passada, a cidade de Americana/SP ficou sem abastecimento de água por 2 dias. A adutora do município apresentou problemas técnicos e a demora no conserto causou sérios problemas para os moradores.

A única adutora da cidade é a responsável pela captação da água no Rio Piracicaba. Depois de captada e tratada, a água é distribuída para a cidade que possui mais de 200 mil habitantes.

Considerado pela Prefeitura como um problema grave, o reparo demorou cerca de 2 dias para ser concluído. A normalização do serviço de captação e distribuição da água pode demorar até uma semana, o que certamente vai continuar causando alguns pequenos problemas e transtornos para a população americanense.

Quando as primeiras notícias sobre o rompimento da adutora começaram a surgir, poucas pessoas deram a devida importância. Foi quando a água literalmente secou das torneiras que grande parte da população percebeu o tamanho do problema que enfrentaríamos nos dias seguintes.

O resultado inicial foi uma chuva de reclamações, pressão no Departamento de Água e Esgoto (DAE) para que o reparo na adutora fosse feito rapidamente, a formação de longas filas nos poços artesianos e diversas matérias nos mais variados meios de comunicação da cidade e da região.

Funcionários do DAE arrumando a única adutora da cidade

Americana não é o primeiro caso de falta d’água e nem será o último

A falta d’água é um problema que ocorre em diversas cidades. Considerado até pouco tempo como um problema exclusivo de regiões secas como o sertão nordestino, hoje tem assombrado a população do sudeste com certa frequência e está se tornando uma preocupação cada vez mais recorrente.

Os motivos podem ser diversos: alta concentração de pessoas em pequenas cidades em determinadas épocas do ano (como nas cidades litorâneas que recebem milhares de turistas no verão), falta de chuva e problemas estruturais, como o ocorrido na cidade de Americana durante a semana passada.

O Rio de Janeiro, por exemplo, passa por problema semelhante neste momento. A queixa da população é quanto ao sabor, a cor e ao cheiro da água oferecida pela CEDAE aos moradores da região metropolitana. Na capital fluminense, o problema é relacionado à poluição, que acaba dificultando a captação da água.

Situações em que a água seca nas torneiras, causando verdadeiro pavor na população, é cada vez mais frequente em diversas cidades brasileiras. Mesmo com algumas campanhas de conscientização promovidas pelo Poder Público, a população só percebe a gravidade do problema quando as torneiras de fato secam.

Quando a situação chega nesse ponto, a solução é correr atrás de poços artesianos ou comprar água mineral em supermercados ou distribuidoras de bebidas.

O que temos feito para evitar a falta d’água? A culpa é de quem?

O Poder Público tem feito algumas campanhas para conscientização. Em momentos de seca, os veículos de comunicação falam diariamente sobre o baixo nível dos reservatórios e de como a situação é grave. Mas só isso não resolve o problema.

Racionar o que sobrou é a solução imediata. Mesmo assim, grande parte da população parece viver em outro mundo. Como a água é um “produto” barato, não é incomum encontrarmos pessoas que desperdiçam água lavando carros e calçadas. Alguns usam a força da mangueira como vassoura para empurrar o lixo. O desperdício de água tratada é constante e vai trazer sérios problemas num futuro bem próximo.

Mesmo que a população cobre das autoridades a resolução destes problemas, sabemos que nos momentos de crise quem acaba pagando a conta é o povo, que vê as torneiras secas e recebe apenas algumas desculpas e explicações esfarrapadas e sem qualquer convicção.

Conhecemos bem a ineficiência do Poder Público. Governos de todas as esferas são incapazes de solucionar problemas relacionado à educação, à segurança, à saúde ou a qualquer outro departamento em que é responsável. Não é de se espantar que vai cair no colo da população os problemas relacionados à falta d’água.

Resumindo: quem sofre e vai continuar sofrendo com a falta d’água é o povo.

E se acabar de vez?

E se acabar de vez? O que vamos fazer?

Tudo indica que a oferta de água tratada e potável vai ser cada vez menor. Embora seja um item de necessidade básica (você consegue viver sem água?), é cada vez mais preocupante a situação e a única certeza que temos, se tudo continuar assim, é que um dia a água potável vai definitivamente acabar.

Como citei no começo do texto, em Americana/SP as filas nos poços artesianos ficaram imensas já no segundo dia. E neste caso específico a cidade tinha água, o problema era na captação. Ou seja, a água estava lá, o que faltava era uma máquina captar, limpar e jogar nos reservatórios da cidade para que ela fosse distribuída aos moradores.

Mas a questão é: e quando tivermos máquinas potentes para captar a água dos rios e represas, mas não tivermos a “matéria prima”?

Não é difícil prever que, caso isso ocorra, passaremos por situações desconfortáveis e perigosas.

É bom lembrar que em situações de emergência, como a falta d’água, o dinheiro acaba prevalecendo. Ou seja, quem tiver dinheiro para pagar por água potável certamente vai conseguir o produto e sanar suas necessidades. Quem não tiver, vai sentir na pele os efeitos dessa tragédia que passará a ser ambiental, social e econômica.

Nesses dois dias de caos na cidade de Americana/SP, o que mais se viu pelas ruas foram caminhões-pipas. Hospitais, restaurantes, prédios e tantos outros estabelecimentos tiveram que por a mão no bolso e comprar água para o abastecimento.

Essa é a uma alternativa quase impossível para quem mora em casa, por exemplo. O problema principal é que as caixas d’água são pequenas se comparadas à quantidade vendida pelas empresas, que priorizam quem compra em grandes quantidades.

Portanto, numa eventual falta d’água, o que podemos esperar da população é muita revolta, poucas alternativas e consciência para que possa mudar certos hábitos de consumo com relação à água e à cobrança de medidas mais inteligentes do Poder Público.

Pessoas esperam por horas nas filas dos poços artesianos em Americana – Foto do G1

A água é barata demais, por isso desperdiçamos tanto

O desperdício não é apenas da população. Quando a Prefeitura ou empresas privadas que cuidam da distribuição da água não faz a correta manutenção nas suas redes de água e esgoto, joga fora milhões de litros de água todos os dias.

E joga fora porque a água, mesmo sendo essencial para a vida humana, é um produto barato.

Um caminhão-pipa com 20 mil litros de água estava sendo vendido em Americana/SP por R$300,00. Isso equivale a R$0,015 (um centavo e meio) o litro. Pouco né?

E em casos assim vemos como a água pode ser um produto de ocasião, onde poucos ganharão muito dinheiro caso realmente passe a faltar com frequência.

Embora a água de um caminhão-pipa não seja mineral (mas é potável), uma garrafinha de água na rua ou num centro comercial (como um Shopping Center) chega a custar tranquilamente R$4,00 ou R$5,00. Isso em 500 ml do líquido, geladinha.

Entendeu como as coisas podem mudar radicalmente numa extrema necessidade?

A água tem o potencial para ser o “novo petróleo”?

Se faltar água, é provável que tenhamos uma disputa para ver quem vai ficar com seus últimos pingos da torneira. Toda escassez gera disputa, e no caso de um bem essencial como a água, ela pode ser ainda mais acirrada.

Claro que algumas pessoas vão lucrar com a falta d’água. Situações assim acontecem em todos os cantos do nosso país, e não precisamos ir longe para verificarmos tais práticas.

Sempre que ocorre alguma tragédia, como deslizamento de terras, enchentes ou acidentes graves que envolvem grande parte da população, é possível encontrar muitas pessoas dispostas a ajudar e outras (o número é bem menor, mas continua sendo significativo) que ficam sedentas para lucrar com a situação.

Por isso, são comuns os relatos de desvios de dinheiro destinados às vítimas, desvio de materiais de primeira necessidade (como produtos de higiene pessoal, roupas e afins) que foram doados por habitantes de outras localidades e alta nos preços de alguns produtos como água, comida e medicamentos.

Se acabasse hoje o petróleo no mundo, certamente viveríamos uma situação caótica. Muito do que fazemos no dia a dia está diretamente relacionado ao petróleo, mesmo sem percebermos. É só observar o que acontece nos países do Oriente Médio para sabermos do que as pessoas são capazes para conseguir o “ouro negro”, como é chamado o petróleo.

Guerras e disputas são constantes por lá. E por aqui, teríamos situação parecida numa disputa pela água potável? Quem se beneficiaria com o caos? É possível a população mudar a cultura de consumo e passar a “respeitar” mais a água tratada que chega nas nossas torneiras?

Estas são perguntas ainda sem respostas, mas que devem servir de reflexão. Afinal de contas, o problema da falta d’água está aí, batendo na nossa porta e assombrando nossas torneiras. Seremos capazes de aprender alguma coisa antes de uma catástrofe acontecer?

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