Na briga McDonald’s x Burger King quem vai a nocaute é o chapeiro

A Black Friday passou e tudo indica que foi um sucesso.

A repercussão foi grande e os números mostram que a data entrou definitivamente para o calendário do comércio. A tendência é que nos próximos anos as promoções da última sexta-feira de novembro sejam ainda mais comentadas.

Teve de tudo, inclusive promoções bizarras que fez muito comerciante passar vergonha. Mas não é disso que quero falar neste texto.

O que me chamou a atenção foi a briga McDonald’s x Burger King.

A disputa foi acirrada na Black Friday e os consumidores foram à locura

Muito se comentou sobre essa “briga” e foi possível acompanhar as filas enormes que se formaram nos diversos restaurantes das duas redes de fast food. O McDonald’s oferecia 2 lanches por R$4,90, enquanto o Burger King vendia 3 lanches por R$5,00.

Isso me fez pensar em algumas questões que envolvem a Black Friday e como algumas empresas se comportam nessas datas.

Olhando com os olhos do consumidor achei a disputa legal. É uma oportunidade de consumir muito por um preço irrelevante e que provavelmente nunca mais será encontrado em “dias normais”. Os lanches saem por R$1,66 no Burger King e R$2,45 no McDonald’s. É um prato cheio para quem gosta desse tipo de comida.

Mas uma promoção assim envolve apenas o bem estar do cliente? Será que vale a pena ter um pouco de empatia e pensar em como promoções malucas e alucinantes interferem na vida das pessoas que trabalham nestes restaurantes?

Eu sei que diante de uma oportunidade como esta, poucas pessoas vão pensar no “chapeiro” que vai trabalhar feito um louco na Black Friday. Porque a rede de fast food não vai contratar mais profissionais para trabalhar só neste dia. Quem estiver na equipe vai ter que se virar para dar conta do recado e atender bem os clientes.

Como falei no texto anterior, datas comerciais como a Black Friday são importantes para o consumo e para a reflexão.

A questão não é ficar com dó dos trabalhadores, mas pensar nas relações de trabalho que estamos produzindo. Um profissional que trabalha no McDonald’s/Burger King terá que produzir 3, 4 vezes mais do que produz normalmente – e todo mundo que já entrou num restaurante fast food imagina a loucura que é trabalhar nesse tipo de ambiente.

Aí eu te pergunto: você acha que isso é saudável? Você seria capaz de produzir 4 vezes mais do que o normal num único dia? Como agiria numa situação como esta se o trabalhador fosse você?

Consumir é cada vez mais um ato político. Muitas pessoas, por exemplo, não compram roupas de marcas que possuem alguma relação de trabalho abusiva com seus empregados – leia-se aqui trabalho escravo. Existem os veganos que não consomem produtos de origem animal e assim por diante.

Não quero dizer que o trabalho no McDonald’s ou no Burger King é escravo. Mas convenhamos, é um ritmo tão alucinante que não deixa de ser exploratório. E sempre pegando as camadas mais baixas e desqualificadas dos trabalhadores como mão de obra para pagar pouco.

Imagem que ilustra a briga entre as duas maiores redes de Fast Food que atuam no mercado brasileiro
A briga foi entre as duas gigantes do fast food

Isso me fez lembrar da “polêmica” de trabalhar ou não aos domingos.

Não tenho em mãos uma pesquisa, mas é quase certo que de cada 10 pessoas, 9 rejeitariam a ideia de trabalhar aos domingos. Domingo é dia de estar com a família e amigos, fazer churrasco – se o dinheiro der para comprar carne – ou descansar. Poucos acordam dispostos a trabalhar aos domingos.

Ao mesmo tempo, eu, você e mais um monte de gente que odeia trabalhar aos domingos, não vê problema algum em passear no shopping ou ir ao supermercado nesse dia da semana.

Se odiamos tanto a ideia de trabalhar nos finais de semana, por que somos capazes de fazer coisas que dependem do trabalho de outras pessoas nestes mesmos dias?

E não falo de serviços essenciais, como profissionais da saúde ou da segurança pública. Falo de profissionais “normais”, que trabalham no comércio. Será que não poderíamos ir ao supermercado durante a semana para que todos pudessem ter o domingo livre?

Eu não acho o fim do mundo trabalhar aos domingos. A economia mudou e foi moldando também os novos hábitos dos consumidores. Além disso, temos a questão dos empregos: quanto mais tempo um estabelecimento fica com as portas abertas, mais profissionais são necessários – pelo menos na teoria. Isso acaba gerando empregos e renda para mais pessoas.

O assunto é complexo. O que pega, pra mim, é a hipocrisia que habita em todos nós de ligarmos somente para o que nos interessa e para atender nossos desejos mais urgentes.

“Eu odeio trabalhar de domingo, mas é 19h50 e eu preciso fazer umas comprinhas no supermercado”; “Eu odeio que meu chefe me peça mais do que o normal, mas vou ao McDonald’s na Black Friday e exijo rapidez e qualidade dos profissionais. Não me importo se eles tem que atender um batalhão de pessoas, estou pagando e quero meu lanche rápido”.

Isso sem contar na qualidade do serviço ou dos produtos oferecidos. Muita gente já reclama dos produtos do McDonald’s ou do Burger King em dias de movimento normal. Já pensou em como são feitos esses lanches numa Black Friday?

Acabei de ver que as duas redes de fast food foram as campeãs de reclamação na Black Friday. Chega a ser previsível, não?

As reclamações certamente já eram esperadas pelos engravatados das duas empresas

Por mais que eu seja um consumidor que vez ou outra vai num desses restaurantes, não acho correto ser cúmplice de uma briguinha promovida por engravatados. Nenhum executivo ou marqueteiro que teve essa “ideia mirabolante” estava na “linha de frente” do restaurante para atender e ouvir as reclamações dos clientes na Black Friday. E pior: é capaz de, na segunda-feira, cobrar os funcionários que não deram conta do recado na sexta-feira.

Mais uma vez: não é preciso ficar com dó de pessoas que precisam trabalhar. É pensar que, embora sejamos apenas consumidores, somos também responsáveis pelo sucesso ou fracasso de muitas loucuras promovidas por algumas empresas.

Nesta briga insana, os nocauteados jamais serão os engravatados. Os chapeiros e atendentes são os mais cotados para caírem na lona desacordados.

big mac perdeu direitos não existe mais